Terça-Feira, 09 de Março de 2021 -

Crise: especialistas defendem racionamento e reúso e esperam honestidade de Alckmin

Publicado em: 02/02/2015
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Assim como os prefeitos de 30 municípios paulistas atendidos pela Sabesp que estiveram reunidos na manhã do dia 28 com o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), para discutir o enfrentamento da crise, ambientalistas e especialistas exigem medidas enérgicas e imediatas do governador Geraldo Alckmin (PSDB).

A primeira delas é a transparência do governo com relação à situação dos reservatórios, que já afeta seriamente o abastecimento principalmente na região metropolitana de São Paulo. A sonegação de informações, aliás, motivou uma manifestação da Proteste Associação Brasileira de Defesa do Consumidor na última segunda-feira (25).

“Falta uma posição republicana para assumir que houve erros na avaliação da crise e que o jeito é economizar. É um estado quase de penúria. Obras como para trazer água do rio São Lourenço”, avalia o coordenador do programa de pós-graduação em Engenharia Civil do campus Ilha Solteira da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Jefferson Nascimento de Oliveira. De acordo com a Sabesp, o Sistema Produtor São Lourenço vai retirar água da Cachoeira do França, em Ibiúna, e percorrerá 83 quilômetros para abastecer uma população de 1,5 milhão de pessoas nos municípios de Barueri, Carapicuíba, Cotia, Itapevi, Jandira e Vargem Grande Paulista, no extremo oeste da capital paulista.

Lembrando que há regiões em que a água já não chega à noite, ele defende um racionamento que leve em conta não apenas a redução do consumo, mas que garanta prioridade no abastecimento de creches, escolas, hospitais e presídios. “Além disso, é preciso o uso racional da água, com o reúso principalmente para grandes consumidores, como as empresas. “Temos de ser intransigentes com o desperdício. Já pararam para pensar em quantos copos de água são gastos para lavar apenas um?”, questiona.

O professor da Unesp, que preside a Câmara Técnica de Ciência e Tecnologia do Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH), aponta ainda a necessidade de conter o desperdício por meio de equipamentos e produtos que utilizem menos água tanto em seu processo de fabricação como também durante sua operação. É o caso de torneiras, chuveiros, máquinas de lavar roupas e louças, entre outros, que passariam a receber um selo de garantia para auxiliar o consumidor na hora da compra.

Para a coordenadora da Rede das Águas, vinculada à Fundação SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro, a população tem o direito de conhecer a extensão do problema e as autoridades têm o dever de informar. “O momento não é de alarmismo, mas falta em nossas autoridades a postura do prefeito de Nova York, Bill de Blasio, que recomendou nesta semana aos moradores da cidade que se preparassem para a nevasca que estava prevista”, diz. Embora as previsões não tenham se confirmado, a pessoas foram prevenidas.

Malu defende ainda a adoção de alternativas simples, comunitárias, como a construção de cisternas. “É preciso educar a população para construir esses reservatórios, como já se fez no semi-árido, a desinfectar e filtrar a água. Mas não se fala nisso. As pessoas pensam: ‘Se a água acabar na torneira, eu compro’. Há uma corrida enorme pela perfuração de poços, o que pode rebaixar o lençol freático, e pela compra exagerada de caixas de água.”

De acordo com Malu, a população entende que é responsabilidade do executivo estadual a gestão da água e da crise hídrica. “Porém, a população se sentiu tranquilizada pelo governador, que negava racionamento. Essa confiança foi importante, porém deixou a todos na zona de conforto e sem respostas. Não sabemos quando vai acabar, quando vão encher as represas. Nossos gestores, e o próprio governador, têm a obrigação agora de acalmar a população. As pessoas estão entrando em pânico.”

A coordenadora lembrou a situação de Itu, pacata cidade a 102 quilômetros da capital paulista, na qual a população, sem água por praticamente 20 dias, saiu às ruas, queimou ônibus e chegou a sequestrar caminhão-pipa. “Naquela região toda, de Campinas a Sorocaba, continuaram sendo aprovados novos empreendimentos imobiliários apesar da crise nas bacias dos rios que abastecem a região. Não houve investimento em reservatórios, na preservação de mananciais. A tendência agora é o esgotamento do suporte hídrico dessas regiões”, disse, ressaltando que os vilões da história não são nem os agricultores e nem a população urbana, e sim o descaso com o saneamento e a falta de investimentos.

De acordo com Malu, o envolvimento da população é fundamental. “Se a sociedade tivesse pautado, a questão da água estaria mais presente. Não existe demanda política por geração espontânea”. E completa: “Nossos rios estão contaminados; vamos ter de tomar muito da própria urina como se faz em muitos países, e temos de prestar mais atenção, exigir laudos, medidas urgentes e tomar cuidado com obras. Não adianta fazer reservatórios agora porque não tem água para encher”.

Palavra proibida

Pelo jeito, o termo racionamento é uma palavra proibida para o governador. Ontem, em Suzano, Alckmin falou sobre a importância da obra, concluída em pouco mais de dois meses, que deve dobrar o volume de água armazenado nesse sistema que abastece parte da zona leste da capital e os municípios de Arujá, Ferraz de Vasconcelos, Itaquaquecetuba, Poá e Suzano, além de parte de Mauá, Mogi das Cruzes e Santo André. Atualmente 500 litros por segundo de água são transferidos para a Grande São Paulo. “A Sabesp tem uma equipe muito preparada e conseguiu fazer esse trabalho em tempo recorde”, disse Alckmin.

Coube ao diretor regional da Sabesp, Paulo Massato Yoshimoto, comunicar a medida impopular do racionamento, que pode ser de dois dias de abastecimento intercalados por cinco dias sem água. Alckmin nunca admitiu falar em racionamento.

Em agosto do ano passado, na abertura de uma série de entrevistas do jornal O Estado de S. Paulo com candidatos ao governo estadual, Alckmin – que venceria com 57,31% dos votos no primeiro turno – foi enfático ao negar o racionamento, questionado por um dos repórteres: “Eu sou contra. Por motivos técnicos e sociais”. E afirmou: “Dentro da crise, estamos fazendo milagre”. Perguntado sobre a possibilidade de as chuvas não caírem, insistiu com tranquilidade: “Não há racionamento e a Sabesp está preparada”.

O especialista em gerenciamento de recursos hídricos e recuperação de reservatórios José Galizia Tundisi, do Instituto Internacional de Ecologia, de São Carlos (SP), ressaltou que a atual crise hídrica traz graves consequências em todas as áreas e atividades da sociedade. E defendeu a imediata estruturação e implementação de plano de contingência e emergência, contemplando medidas e ações emergenciais que atinjam a todos os usuários da maneira mais uniforme possível. “Deve ser assegurado ao público o direito de livre acesso à informação integral e atualizada”, disse.

Tundisi defendeu ainda o planejamento para a gestão e enfrentamento de eventos extremos (períodos de secas e enchentes) para reduzir os impactos. Segundo ele, a seca de 2014 revelou a necessidade de um “plano B” para São Paulo. “É preciso acelerar as obras do São Lourenço, reduzir a demanda por abastecimento, por meio do racionamento, diminuir as perdas nas redes da Sabesp e fazer campanhas educativas para reduzir o desperdício.”

Fonte: Cida de Oliveira, da RBA

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