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Medidas para combater crise hídrica em Sço Paulo sço tardias e insuficientes

Publicado em: 05/02/2015

Passados quatro meses da reeleição de Geraldo Alckmin ao governo paulista, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de Sço Paulo (Sabesp) intensifica sua divulgação sobre a crise hídrica e divulga medidas que ajudariam a resolver a questço pontual e futuramente. Entretanto, todas, sem exceção, vêm com atraso no momento em que a população vive na iminência de ficar com as torneiras vazias, de acordo com especialistas consultados pelo iG. Além disso, apesar dos altíssimos custos, algumas das obras anunciadas podem se provar insuficientes para lidar com o problema, uma vez que dependem de chuvas.

“Simplesmente não temos qualquer segurança hídrica no Estado e no País. Estamos à mercê do clima”, afirma Antônio Carlos Zuffo, Chefe do Departamento de Recursos Hídricos da Universidade de Campinas (Unicamp). “A engenharia, hoje, provê obras para amenizar os efeitos da falta de água. Mas quando se chega ao colapso de todo o sistema, como estamos vendo nos reservatórios que abastecem o Estado, acabamos tendo de depender das chuvas. Estamos seguindo o caminho da tragédia.”

Para enfrentar a crise, a Sabesp adotou medidas pontuais, além de um planejamento para médio e longo prazo. Neste mês, a companhia já começou a aplicar multas para quem exceder o consumo, que se aliam à prática de fornecer bônus na conta àqueles que diminuírem o uso, prorrogada até o fim de 2015. As ações devem ser reforçadas com a instalação em todas as residências atendidas pela estatal de economizadores nas torneiras, responsáveis por reduzir o volume consumido em até 20%.

Segundo os especialistas, as medidas sço positivas, mas, assim como as obras anunciadas pelo governo, se apresentam tardiamente em um Estado à beira do colapso em seu abastecimento. A iminência da crise hídrica é conhecida há pelo menos dez anos, quando estudos demonstraram que os reservatórios de armazenamento dos sistemas vinham retirando mais água do que o recomendado. Em 2013 ficou claro que a situação só havia piorado com o passar dos anos. Em janeiro daquele ano, o Cantareira apresentava 48,8% de sua capacidade de armazenamento – índice bastante inferior à média de 67% para o período. No mesmo mês de 2014, a porcentagem caiu para 27,2%.

E a realidade só piora: neste mês de fevereiro, o Cantareira começou com volume negativo de 24,5%, excluindo as três cotas de volume morto com as quais a Sabesp faz seus balanãos (com elas, o volume é de 5,1%). Recentemente, a estatal chegou a admitir pausas na distribuição de água que podem chegar a cinco dias, caso a atual temporada de chuvas siga com precipitações abaixo da média, como tem ocorrido atualmente.

“O cenário que os estudos apontam é que a segunda reserva técnica do Cantareira deve acabar entre março e abril. A terceira, lá para outubro, quando talvez voltem as chuvas. A ideia de um racionamento é garantir que o recurso chegue para todo mundo, que ele não acabe. Mas desde setembro de 2013 a Sabesp vinha retirando do viável. O quadro da crise já estava configurado e o governo foi empurrando com a barriga”, critica o professor José Roberto Kachel, sanitarista e membro do Comitê da Bacia Alto Tietê. “O governo exalta o sucesso que foi a redução de consumo em Sço Paulo com a aplicação dos bônus e da redução de pressço. Mas isso é balela, porque ele não conseguiu evitar o colapso: mesmo com as medidas, o Cantareira vai esvaziar.”

Redução da pressço
Desde o início de 2014 têm proliferado relatos de falta de água em diversos bairros paulistanos e cidades do interior. Moradores passaram a apelar para a construção de poços artesianos, armazenamento de água potável, reúso do recurso das chuvas. O motivo, só agora de fato admitido pelo governo, sempre foi a redução em horários específicos da pressço das redes de distribuição de água, responsável por deixar torneiras secas principalmente na periferia.

Na primeira coletiva à imprensa de sua gestço, o novo presidente da Sabesp, Jerson Kelman, admitiu que é justamente essa redução a principal medida para amainar a crise no Estado. Como a rede de distribuição perde aproximadamente 40% da água que deveria chegar às casas e indústrias, diminuir a pressço colaboraria para amenizar essas perdas. Entretanto, como apontam os especialistas, a ação é simplesmente paliativa – e deveria vir acompanhada de outras práticas para mudar a situação no futuro.

Obras e mais obras 
Se as medidas já em vigor visam a amenizar os efeitos da crise, o governo do Estado tem planos milionários para evitá-los no futuro. O principal deles é a transposição do Rio Paraíba do Sul, composto pelos reservatórios Paraibuna (SP), Santa Branca (SP), Jaguari (SP) e Funil (RJ), e que banha os Estados de Sço Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O projeto prevê a captação de água de Jaguari para transferi-la ao Atibainha, parte do Sistema Cantareira, que seria reforçado com vazço média de 5.130 litros por segundo – chegando a 8.500 litros por segundo em períodos mais chuvosos.

Mas a obra, avaliada em aproximadamente R$ 800 milhões, já demorou demais para ser iniciada. Planejada desde 2004, quando documento do DAEE previu a crise pela qual o Estado passa atualmente, a transposição só está sendo iniciada agora, mais de dez anos após o previsto. As construções também levam tempo. Com a iminência de o Cantareira secar totalmente ainda neste ano, os resultados da transferência só começarço a ser sentidos em meados de 2016, segundo as previsões do governo para o término das obras.

Além disso, a transposição esbarra em um obstáculo que também deverá ser percebido em outra obra prevista pela Sabesp, o Sistema de Água Sço Lourenão – ainda mais custoso, orçado em R$ 2,2 bilhões e com o objetivo de beneficiar a Regiço Metropolitana de Sço Paulo com oferta de mais 4,7 mil litros de água por segundo até 2018 (totalizando 10,4 mil litros por segundo a mais à população no ano): a dependência por precipitações para encher os reservatórios.

“Eu não acredito que essas obras sejam suficientes, até porque só a transposição do Paraíba do Sul e o Sço Lourenão não deve compensar as perdas dos demais sistemas, além de também dependerem de chuvas para encher seus reservatórios”, diz Zuffo. Para o especialista, a redução generalizada de consumo e práticas de reuso de água se mostram mais do que urgentes para lidar com a situação atual. 

“Vamos precisar de criatividade, de boa vontade. Nço existe outra opção a não ser aprendermos a viver com o que temos à nossa disposição”, concorda Kachel.

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