Domingo, 18 de Abril de 2021 -

Nossa água: O que faremos se acabar a água em São Paulo em 2015?

Publicado em: 09/12/2014
Foto: Luis Moura/WPP/Agência O Globo

Foto: Luis Moura/WPP/Agência O Globo

 hora de encarar os fatos: as chuvas salvadoras de verão estão falhando. O verão astronômico começa oficialmente no Natal, mas a temporada de chuvas fortes e regeneradoras da estação tradicionalmente chegam em novembro. Mas não vieram de novo. Estamos há 14 meses com uma seca extraordinária. O mês de novembro passado teve chuvas de 20% a 30% abaixo da média na região da Cantareira, principal sistema de abastecimento de São Paulo. Na primeira semana de dezembro, choveu só 7% do que deveria ter caído. No último fim de semana, o calor fez a água evaporar da vegetação e dos reservatórios. Formou nuvens pesadas e cinzentas. Que se dispersaram no fim da tarde sem entregar uma gota no sistema Cantareira. Nas últimas semanas, as previsões de chuva dos meteorologistas têm sistematicamente errado para pior. Precisamos olhar para o futuro próximo. É o momento de se preparar para o que pode acontecer nos próximos meses.

Os reservatórios da Cantareira estão com 8,0% de sua capacidade, já contando a segunda cota do volume morto, a água do fundo que a Sabesp conseguiu recuperar. Nas últimas semanas, com as chuvas insuficientes, os reservatórios não estão enchendo. Ao contrário, seguem esvaziando num ritmo de aproximadamente 0,1% ao dia. Basta uma matemática básica para prever que, se o verão não mudar de estilo bruscamente, o sistema que abastece 6 milhões de pessoas só dura mais 80 dias. Mesmo que chova um pouco mais e a população consiga economizar ainda mais água, quanto esse reserva pode durar? Há uma possibilidade real de os reservatórios se esgotarem antes das próximas chuvas de verão, em novembro de 2015. É hora de fazermos as perguntas difíceis. Qual é o plano de contingência caso os reservatórios que abastecem São Paulo sequem no ano que vem?

1. Podemos fazer uma ligação para buscar água no sistema do Paraíba do Sul? Quanto tempo leva essa obra? Qual sua capacidade para abastecer São Paulo?

2. É possível cavarmos poços e tirar água do subsolo para encher os reservatórios da Cantareira? Qual é a capacidade técnica para fazer isso no volume necessário? Seria preciso mobilizar todas as empresas do Brasil que fazem poços? Seria preciso convocar a engenharia do exército? As empresas que cavam poços de petróleo, como a Petrobras?

3. Será necessário retirar parte da população de São Paulo? Quem sairia primeiro? Como seria esse deslocamento? Para onde iriam? O que aconteceria com a economia local? Como seria o ano letivo? Quem vigiaria os bairros semi-abandonados?

Cidades sofrem catástrofes climáticas. Elas existem. Grandes cidades enfrentam terremotos, furacões ou tsunamis. De um jeito ou de outro, se recuperam depois. Mas esses eventos são imprevisíveis. Nossa situação é diferente. Temos alguns meses para encarar as possibilidades e começarmos a nos prepaparar. Precisamos começar a debater o que faremos caso a água acabe mesmo e avaliar o quanto estamos dispostos a pagar, em dinheiro e sacrifício pessoal, para cada plano de emergência. Os governantes não gostam de expor essas possibilidades, por medo do pânico e do desgaste político. Mas não há mais tempo para imaginar que o problema não existe ou se resolverá por mágica.

Fonte: Época – Alexandre Mansur

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